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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

"Ôh, crianças! Isso é só o fim, isso é só o fim..."

Naquela noite Marianna e Fernando finalmente tiveram a oportunidade de ficarem juntos (se é que vocês me entendem). Tudo aconteceu na cama de baixo de uma beliche, na casa de Carlinhos. 


Marianna não era nenhuma inocente, afinal naquele ano de 1997 ela iria completar dezenove anos. Ela tinha tido relações com outros caras que aparentemente se preocupavam mais em sentir prazer, do que oferecer prazer.

Com Fernando foi surpreendentemente diferente. Ele era impetuoso e carinhoso ao mesmo tempo. Doce e quente. E o mais importante, o fato de ele ser deficiente não atrapalhou em nada a relação dos dois, ao contrário, Marianna queria mais. E como é difícil para muitas mulheres admitirem isso.

Fernando estava cada dia mais apaixonado, decidido a ir na casa da mãe dela, para oficializar o namoro. Marianna apenas pediu um tempo para preparar o terreno. No fundo ela tinha medo de que sua mãe estragasse tudo, ofendendo Fernando.

Alguns dias se passaram, antes dos jovens se reencontrarem novamente. E foi justamente na Feirinha que tudo tinha que acontecer, como sempre! 

Marianna chegou tarde, pois ficou presa no trabalho fazendo hora extra. Ela estava com dor de cabeça, o que raramente acontecia. Pensou seriamente em não ir à Feirinha, como se aquilo fosse algo parecido com um pressentimento ruim, mas o desejo de rever Fernando falou mais forte.

Assim que chegou encontrou ele como sempre, encostado em um fusca que estava estacionado, conversando com três estranhas que Marianna nunca tinha visto.


- Oi Marianna que bom que você chegou! Deixe eu te apresentar, essas aqui são minhas amigas...

- Quantas amigas você tem não é mesmo Fernando? Hoje eu não estou a fim de conhecer ninguém!

Nesse momento as três moças sumiram, cada uma foi para um lado.

- O que aconteceu com você? Essa Marianna é bem diferente daquela do último sábado, lá na casa do Carlinhos.

- E esse Fernando, está igual a todos os caras que eu conheço, cercado de meninas.

- Deixa disso e vem cá... Me dá um beijo.

- "Vem cá" vírgula! Depois de tudo que rolou sábado, eu tenho muito mais motivos para ter ciúmes. Afinal você é muito bom, de verdade. E me irrita o fato dessas meninas ficarem pegando em você, encostando em você, te beijando e te abraçando. Toda vez que eu chego, você está conversando com um monte delas. Imagina se você chega e eu estou aqui rodeada por um monte de caras, qual seria sua reação?

Marianna estava tão transtornada, que isso desestabilizou Fernando. Foi então que ele falou algo muito sério e que se arrepende até hoje:

- Isso quer dizer que você não confia em mim? Você duvida do sentimento que eu tenho por você? Porque se for assim é melhor a gente dar um tempo...

No fundo ele não queria colocar Marianna contra a parede, queria apenas que ela voltasse à razão, mas o efeito foi justamente o contrário. 

- Para mim não existe essa história de dar um tempo. Para mim acabou! Chega!

E Marianna virou as costas e não olhou para trás... Acendeu um cigarro comprou uma garrafa de vinho e foi embora.

Pelo caminho ela cantava aquela música do Camisa de Vênus: " Isso é só o fim":

"Se o chão abriu sob os seus pés
E a segurança sumiu da faixa
Se as peças estão todas soltas
E nada mais encaixa

Ôh, crianças!
Isso é só o fim, isso é só o fim (2x)

Algo que você, não identifica
Insiste a atormentar
Você implora por proteção
Não sabe como vai acabar"***




O relacionamento dos dois acabou assim, mas a história de Marianna, ainda não...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sonhando

O sábado seguinte chegou rápido. Fernando passou na casa de Marianna e dessa vez sua mãe não disse nada, apenas viu os dois saírem.

- Uma hora dessas, eu queria conversar com sua mãe Marianna. Falou Fernando.

- Não precisa conversar nada com ela não Fernando. Respondeu Marianna.

No fundo ela temia que Fernando soubesse da homossexualidade de sua mãe. Era melhor as coisas ficarem do jeito que estavam.

- Você tem vergonha de mim? Só porque sou deficiente físico?

- Se eu tivesse vergonha de você, nós não ficaríamos juntos, na frente de todos. Você nem queira conhecer minha mãe. Ela é muito diferente da Lili. Ela só pensa em grana. Vamos mudar de assunto. Quanto tempo até chegarmos na casa de Carlinhos?

- Uma hora e meia, mais ou menos, se os ônibus ajudarem.

Marianna nunca tinha ido ao bairro que Carlinhos morava. Tudo era tão diferente do lugar em que ela morava. O que mais chamou atenção de Marianna foi uma igreja católica construída em formato de um chapéu.


Para Marianna tudo era novo. O bairro que possuía uma vista linda, as pessoas bonitas e alegres, muitos jovens  de preto pela rua pareciam que todos curtiam rock. 

O ano era 1997. Carlinhos tinha três irmãos e uma irmã. Todos exibiam as tatuagens que Carlinhos havia feito. Marianna pensou que todos tinham sido cobaias do irmão. Devia ser muito legal ter um irmão tatuador. A única pessoa que não tinha tatuagem na casa de Carlinhos era sua mãe, ela preferia colecionar orquídeas, ao invés de tatoos pelo corpo.


A namorada de Carlinhos também estava lá. Marianna e Fernando não simpatizavam muito com ela, que parecia ter "o rei na barriga". Mas  como ela era a namorada de Carlinhos não havia muito o que eles pudessem fazer, apenas tentarem conviver com ela 'numa boa'. 

O tal show que os jovens foram ver, não era nada do que Marianna esperava. A banda era uma porcaria. Mas quando estamos com quem gostamos, não importa o lugar. Marianna e Fernando subiram para a parte mais alta do bairro e ficaram sentados em uma pedra grande  olhando as estrelas. Pode se passar muitos anos que Marianna jamais vai esquecer dessa noite.

- Fernando me fale mais um pouco sobre você. O que você gostaria de fazer, que ainda não fez? Perguntou Marianna.

- Que é isso, você virou repórter agora? Eu nunca contei prá ninguém, mas eu tinha vontade de voar de asa delta. Respondeu Fernando.

- Nossa que coisa mais diferente...Infelizmente eu não vou poder te acompanhar, eu tenho que te confessar uma coisa, você vai rir de mim.

- Agora estou curioso, fale logo...

- Eu morro de medo de altura. Só da gente estar aqui no alto olhando tudo ficar pequeno lá embaixo, eu fico com medo.

- Pois meu maior sonho é voar... Já que eu só tenho uma perna boa, pois as muletas substituem minha perna doente, eu gostaria de uma vez na vida poder voar.


- Quem sabe um dia?!

E assim Marianna e Fernando, se deixaram ficar...


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Ciúmes

Marianna queria muito sair do martírio que se encontrava. Enquanto todas as garotas da sua idade se preocupavam com as roupas e os sapatos da moda, Marianna se preocupava em pagar a conta de água  ou de luz. O ano era 1997. Ela nunca ficava muito tempo sem trabalhar: trabalhou em padaria, açougue, farmácia e em vídeo locadora também. O salário mínimo naquele ano era R$112,00 o governo anunciava que o novo valor seria de R$120,00. Para sua mãe, a grana que Marianna dava nunca era suficiente, mesmo recebendo só um salário. Depois que contribuía para pagar as contas de casa não sobrava quase nada, apenas o essencial para comprar cigarro, vinho e pagar o ônibus para ir à Feirinha, vez ou outra ela comprava um CD de rock. Sua próxima aquisição seria "The Roots" do Sepultura.


Na quinta-feira como era de costume Marianna foi à Feirinha para se encontrar com Fernando. A última vez que se viram foi no domingo de manhã, depois da festa de Dinho e de dormirem na casa de Lili. A relação dos dois já estava ficando mais séria.

Assim que chegou lá, Marianna encontrou Daniela e sua irmã Kátia. Mais uma vez Marianna agradeceu a hospitalidade de Lili, que deixou que ela e Fernando dormissem na sua casa.

- Por acaso vocês viram o Fernando? Perguntou Marianna.

- Ele estava aqui agora, saiu com Anjinho para comprar uma garrafa de vinho, já devem estar voltando. Respondeu Daniela.

Nesse instante Marianna viu chegarem Fernando e Anjinho com uma garota que Marianna nunca havia visto. Ela tentou se controlar, pois não sabia quem era a "tal". Mas seu ciúme era tão forte que dava até para sentir.

- Ei Sereia (era assim que Fernando chamava Marianna) , pensei que você não vinha mais! Falou Fernando.

- Então você é a famosa Sereia? Perguntou a recém chegada. - Muito prazer me chamo Haide, acabei de chegar de São Paulo. Sou a irmã mais velha de Daniela e Kátia. Minha mãe me falou muito bem de você, ela me disse que você conseguiu tirar minhas irmãs da cama cedo no domingo.

Já refeita da surpresa, Marianna respondeu:

- Quanto ao famosa, isso é exagero. Mas a Lili é muito legal. Quem me dera ter uma mãe assim. Confesso que eu já estava com ciúme, quando vi você chegando com o Fernando, primeiro porque você é muito bonita e segundo porque eu nem sabia quem era você.

- Pode ficar tranquila, eu nem quero saber de homem tão cedo. Fugi do louco do meu namorado, que não me deixava em paz. 

- Vamos ali na frente um pouco Marianna? Falou Fernando.

Os dois saíram para o final da rua.

- Deixa ver se eu entendi direito, você está com ciúmes de mim?



- Qual o problema? Eu gosto de você Fernando! Tudo bem que a gente está ficando há pouco tempo, mas eu gosto de ficar com você, gosto do seu beijo e da forma como você me abraça.

- Eu também passo o dia todo pensando em você, fico contando os minutos para estarmos juntos. Mas não precisa ter ciúmes não, 'tá' bom? Desfaz essa cara de chateada, eu gosto de ver seu sorriso, ouvir sua risada. 

- Tudo bem então. E o que é que nós vamos fazer no sábado?

- Era isso que eu queria te dizer: vamos na casa do Carlinhos, vai ter um show de rock lá no bairro onde ele mora, que tal?

Carlinhos era um dos tatuadores mais requisitados da Feirinha. Ele tatuou Marianna quando ela fez 18 anos. E era muito próximo de Fernando.


- Vamos então, você passa lá em casa que horas no sábado?

- Às seis da tarde. Se prepare porque vamos ter que pegar dois ônibus de novo.

- Se é pra ouvir "o bom e velho rock and roll", vamos lá!


sábado, 18 de dezembro de 2010

Volta para casa

Apesar de Marianna estar tão bem ambientada na casa de Lili já era tarde e ela tinha que ir embora. Chamou Fernando e juntos foram pegar o ônibus. Como era domingo eles ficaram "mofando" no ponto.


- Marianna você está com um ar tão sombrio!

- Fernando foi tudo ótimo: a festa do Dinho, a casa da Lili e até nossa longa caminhada, foi tudo tão mágico. Mas eu já estou imaginando o que me aguarda lá em casa, minha mãe vai falar até 'babar'...

- Mas você não disse para ela que a festa era longe? Ela sabe que não tem ônibus a noite toda. 

O ônibus chegou e os dois entraram. Foram calados a viagem toda. 

Quando uma pessoa vai em um lugar pela primeira vez parece que a ida sempre demora mais. Na ida Marianna queria chegar logo, mas a volta foi relativamente rápida. Ela não queria voltar para casa nunca. Mas o confronto com sua mãe era inevitável. 

Antes de descer Marianna se despediu de Fernando:

- Então fica assim, depois a gente se vê!

- Você vai na Feirinha na quinta?

- Se eu estiver viva até lá!

- Deixa de drama e me dá logo um beijo!

Marianna desceu do ônibus e caminhou sem vontade para casa. Na medida que ia andando reparava nas pessoas felizes pela rua. Casais de namorados, pais com os filhos jogando bola ou andando de bicicleta. Como ela queria ter uma família 'normal'.


Ao abrir o portão,  a primeira pessoa que Marianna viu foi sua mãe. Em cima do salto, toda maquiada e se preparando para sair. Ela estava toda sorridente e com ótimo humor. Atrás dela estava Tânia, a namorada de sua mãe.

- Ainda bem que você chegou Marianna! Vamos sair e você tem que ficar com seus irmãos!

- Você não vai falar nada não mãe? Não vai me perguntar onde eu dormi?

- Vou falar algo por quê? Você não vai me ouvir mesmo. Depois que eu vi você saindo ontem daqui com aquele 'aleijado'. Esqueci o certo é dizer 'deficiente físico'. Depois que você saiu ontem daqui com ele eu desisti de você. Tomara que você se case logo com ele e vá embora daqui. Assim é uma boca a menos. Tem almoço no fogão. Tchau 'prá' você.

A mãe de Marianna havia dado tanta ênfase para as palavras 'aleijado' e 'deficiente físico'.  Ela não poderia nunca perder a oportunidade de humilhar sua filha. 

Marianna entrou em casa, seus irmãos assistiam aqueles programas horríveis que passam todo domingo na TV. Antes de mais nada precisava tomar um banho urgente e escovar os dentes. Ligou o som e colocou  Sabbath, Bloody Sabbath com o Ozzy Osbourne no último volume, entrou no chuveiro e cantou para espantar todos os seus males...





terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Lili

Depois de andarem por tanto tempo, finalmente Marianna e Fernando chegaram à casa de Daniela e Kátia.  A mãe das meninas levantou-se e se surpreendeu com os convidados inesperados da filha.

- Mãe esses são meus amigos Marianna e Fernando. Como já está muito tarde e eles perderam o último ônibus, chamei-os para dormirem aqui em casa. Foi logo dizendo Daniela. 

A primeira coisa que a mãe de Daniela reparou foram as muletas de Fernando, mas ela não disse nada. A única coisa que falou foi o seguinte:

- Muito prazer, podem me chamar de Lili. Vou pegar uns lençóis, mas vocês terão que dormir no sofá. A casa é pequena e sendo vocês amigos de minha filha, fiquem a vontade. 


Marianna nem acreditou no que estava ouvindo. Como seria bom se sua mãe fosse assim também! Agradável e sincera. Fernando se deitou no sofá grande e Marianna no sofá pequeno, um do lado do outro.

- Marianna eu gosto muito de você! Falou Fernando.

- Eu também Fernando. Respondeu Marianna.

E assim adormeceram. 

No domingo pela manhã eles acordaram cedo, pois não queriam atrapalhar. Um cheirinho de café fresco vinha da cozinha. Marianna levantou-se do sofá e foi se encontrar com Lili.


- A Senhora precisa de ajuda? Falou Marianna.

- Senhora "tá" no céu menina, me chame de Lili. Está tudo sob controle. Vamos tomar café?

- É melhor eu esperar as meninas levantarem Lili.

- Daniela e Kátia nunca levantam antes do meio dia no domingo.

- Isso é muito chato, assim elas perdem o dia todo.

Nesse momento Fernando entrou na cozinha.

- Desculpe a gente ter vindo sem avisar Lili. Fernando foi logo dizendo.

- Meninos não se preocupem, eu também fui jovem um dia. Aliás, ainda sou jovem. Quando eu conheci meu marido nós éramos hippies, loucos e inconsequentes. Até hoje eu ouço Janis Joplin. Mas isso é uma longa história. E você Fernando, sem querer ser chata, posso te fazer uma pergunta?


- Depois de você ter recebido a gente tão bem pode fazer até duas se quiser Lili.

- Por que você usa muletas?

- Quando eu era pequeno tive paralisia infantil. Todo mundo me pergunta isso, já me acostumei.

- E vocês são namorados? 

Nesse momento Marianna olhou bem nos olhos de Fernando e respondeu:

- Bem nós estamos ficando...

- Ela já é minha namorada, apenas não sabe...

Nesse momento Daniela e Kátia surgiram na cozinha e também participaram da conversa. 

- Minhas filhas levantando cedo! Que milagre! Todo fim de semana vocês dois: Fernando e Marianna podem vir aqui prá casa. Vocês operaram um milagre nessas duas!

Todos caíram na gargalhada.

Em toda sua vida Marianna nunca tinha se sentido tão bem. O ar era leve, o papo tranquilo. Parecia que eles já se conheciam há muito tempo. Ela não queria ir embora dali. Amargurada,  sentiu uma pontinha de inveja das meninas por terem uma mãe tão legal. 
Por que sua mãe não podia ser assim também? Tão legal com seus amigos?
A mãe de Marianna só pensava em grana e tinha o péssimo hábito de julgar as pessoas pela aparência. O que será que ela iria dizer quando a filha chegasse em casa? 








sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A Festa

Marianna saiu de casa aborrecida com sua mãe, que teimava em querer controlar sua vida.
Fernando percebeu que ela estava séria e comentou:

- Sua mãe é bem nervosa Marianna! Parece que ela não gostou muito de mim.

- Não liga não. Minha mãe não gosta de ninguém, se for amigo meu então... Prá ela ninguém presta. Penso que ela nunca vai mudar.

Marianna queria mudar de assunto, pois tinha receio que Fernando descobrisse que sua mãe era homossexual e vivia com outra mulher.


Marianna e Fernando subiram para pegar o ônibus, que demorou mais de meia hora para passar, o trajeto até a festa era longo. Depois a espera por mais um ônibus que não chegava nunca. Eles esperaram abraçados por mais de uma hora. Quando Marianna estava decidida a voltar para casa, o segundo ônibus finalmente chegou. 
O ano era 1997. Marianna tinha dezoito anos e Fernando 22. Eles nunca tinham ido na casa de Dinho. Apenas pegaram seu endereço e perguntaram para o cobrador onde era o ponto que eles teriam que descer. Se fosse nos dias de hoje, Marianna acessava o 'mapa do google' e veria seu trajeto. Se ela estivesse em 2010, simplesmente ligaria do seu celular de dois chips para a casa de Dinho e pediria para alguém esperá-los próximo ao ponto de ônibus. Mas naquele tempo celular era coisa que só rico possuía.


Quando finalmente chegaram, a festa já estava "bombando". A casa de Dinho era grande e estava cheia demais, ele havia improvisado um mini palco para a banda tocar. Muitos jovens entravam carregando garrafas de vinho. Com muita dificuldade Marianna e Fernando conseguiram encontrar seus amigos no meio de toda aquela gente. 

O rock comia solto, a banda estava tocando 'Mama Said' do Metallica. Vários jovens exibiam suas tatuagens. A cor predominante era o preto, o aroma do incenso aceso perfumava o ar. Marianna e Fernando beberam tanto, o ambiente estava muito legal. A noite passou tão rápido!


Por volta das três e meia da manhã eles decidiram ir embora. Nesse horário não havia mais ônibus que os levasse de volta até o bairro onde moravam. Daniela que era namorada de Anjinho, primo de Dinho ofereceu sua casa para os dois dormirem. Mas ela morava na metade do caminho, ou seja eles ainda teriam que pegar um ônibus e naquele horário só havia um noturno. Por sorte eles saíram a tempo, mas depois que desceram tiveram que andar um trajeto de 7 km aproximadamente para chegar na casa de Daniela. Marianna insistiu para que Fernando pegasse um ônibus, afinal por ser deficiente físico ele não pagava passagem. Mas ele  queria ir a pé, junto com todos.

Os jovens estavam duros e como nem todo mundo tinha grana, foram todos a pé: Marianna e Fernando, Anjinho e Daniela, Kátia e Lambão e mais dois caras que estavam na festa que Marianna não conhecia. Todos estavam bêbados e iam cantando pela rua. Se estivessem sóbrios jamais andariam uma distância daquela. 

Depois de quase uma hora e meia de caminhada, eles chegaram na casa de Daniela. As mãos de Fernando tinham bolhas por causa das muletas e do tremendo esforço. Marianna não conhecia a mãe de Daniela. Qual seria a reação dela ao descobrir que a filha tinha levado estranhos para dormir em sua casa, sem avisar?


domingo, 5 de dezembro de 2010

Algo mais sério

Fernando parou de beijar Marianna. Os dois então foram trocar ideias com o resto do pessoal que estava na Feirinha. No sábado seguinte ia rolar uma festa de aniversário de um cara que tinha o apelido de Dinho (mas não era o Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial).

Dinho tinha uma banda de rock junto com seus quatro outros irmãos e eles iam tocar na festa. O repertório era variado: Eles faziam cover do Iron, Metallica, Black Sabbath e tocavam também Plebe Rude. No final do Show sempre tinha alguém que pedia: Toca Raul!


Quem também não poderia faltar era Anjinho (que era primo de Dinho) sua namorada Daniela. A irmã de Daniela: Kátia. O namorado de Kátia: ‘Lambão’.  
Era o programa preferido de Marianna e Fernando: Rock, bebida e amigos.

No sábado Fernando passou na casa de Marianna para juntos irem à Festa. Marianna estava terminando de se arrumar quando Fernando bateu no portão. A mãe de Marianna levantou-se do sofá e foi atender o portão. 


- Boa noite!  Muito prazer meu nome é Fernando. A senhora poderia dizer para 'Sereia' que estou esperando.

- Você quer dizer Marianna. O nome da minha filha é Marianna! 'Peraí' que eu vou chamá-la.

A mãe de Marianna entrou batendo o portão e pensando que sua filha não tinha jeito.

- Marianna, tem um 'tal' de Fernando aí fora procurando por 'Sereia' esse apelido ridículo que colocaram em você. Você está ficando com esse cara Marianna? Perguntou a mãe de Marianna, visivelmente irritada.

- Por que você quer saber mãe? Perguntou Marianna. 

- Você ficando com um aleijado! Era só o que me faltava.

- Nossa mãe, se você não tivesse falado eu nem teria notado!

- Deixa de ser cínica Marianna.

- Mãe não se diz aleijado. Se diz deficiente físico. E eu fico com quem eu bem entender.

- Você é nova e bonita. Podia ficar com um cara que pelo menos tivesse dinheiro.

- Desde quando cara rico fica com menina pobre, mãe? Só se for na novela das oito. Olha, deixe eu ir se não nós vamos perder o ônibus. Hoje eu só volto amanhã, porque a festa é longe 'prá caramba', temos que pegar dois ônibus. Tchau!

- Agora é assim. Depois que você fez dezoito anos pensa que é dona do próprio nariz! Juízo Marianna.

- Juízo não mãe: Criatividade!

Marianna saiu já aflita pois eles iam chegar bem tarde na festa...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fernando

Por que era tão difícil para Marianna admitir que estava ansiosa para rever Fernando? Durante aquela semana que se passou até  chegar novamente o dia de ir à Feirinha, Marianna se consumiu em ansiedade. Afinal de contas, ela não conseguia esquecer daquele beijo tão intenso que deu nele, meio que sem querer, por estar triste pelo destino de seus velhos amigos.

Fernando nasceu em 1974. Não havia campanhas anuais de vacinação. Fernando adquiriu paralisia infantil ainda criança e necessitava de muletas para se locomover.


Ao contrário de Marianna que tinha apenas uma tatuagem, Fernando tinha várias: um duende, uma rosa, o nome de uma banda de rock que eles gostavam entre outras tantas. Todas as tatuagens tinham sido feitas por Carlinhos, que era o tatuador mais requisitado que frequentava a  Feirinha. Os braços de Fernando eram fortes devido ao tamanho esforço de se locomover com as muletas, ele era branco, tinha os cabelos lisos, castanhos e ostentava um bigodinho que o fazia aparentar ser bem mais velho do que era na verdade. Marianna tinha nessa época dezoito anos e Fernando tinha vinte e dois. O ano era 1997. A diversão principal dos jovens era ir à Ferinha, trocar ideias com os amigos, beber, ouvir rock, enfim curtir a vida.

Juntamente com sua amiga Margarida, Marianna saiu de casa naquela noite na esperança de rever Fernando. Chegando na Feirinha a primeira pessoa que Marianna viu foi ele: em pé, meio que encostado em um carro que estava estacionado na rua, rodeado por meninas que o abraçavam e ficavam repetindo seu nome sem parar.

Marianna passou por ele e acenou com a cabeça e não parou para conversar. Margarida então falou:

- Você ficou com o Fernando, Marianna?

- Sim. Na semana passada que você não veio aqui. Por que você quer saber Margarida?

- Olha Marianna você é minha melhor amiga, então só quero o seu bem. E eu acho que você pode arrumar coisa melhor! Emendou Margarida.

- Margarida, você vai me desculpar, mas eu não concordo com você. Acho que ele é tão legal quanto qualquer um. Você está sendo preconceituosa só porque ele é deficiente físico. Ou você quer ficar com ele também? 

- Não é nada disso Marianna. É que... Bem eu não sei explicar.

- Eu gosto muito de você Margarida. Mas, deixe que da minha vida cuido eu. Já basta ter que aturar minha mãe me dando ordens o dia todo. Eu fico com quem eu quiser. 

- Então Marianna, não está mais aqui quem falou. Eu vou ali conversar com o pessoal, até mesmo porque o Fernando está vindo aí.


Fernando usava um  jeans rasgado, que era moda na época e uma camiseta preta. Estava sorrindo para Marianna quando falou:

- "Se Maomé não vai à montanha..." Por que você não parou para conversar comigo Marianna? Perguntou Fernando. - Eu estava querendo muito te ver.

- Bem, eu não queria atrapalhar. O papo entre você e aquelas meninas parecia estar tão bom.

- 'Peraí', elas são apenas minhas 'chegadas'. É impressão minha ou eu senti uma pontada de ciúmes no seu comentário?

- Por que eu teria ciúmes, afinal nós ficamos juntos apenas uma única vez. E eu devo confessar que eu gostei, você beija muito bem Fernando, de verdade.

- E você é muito linda! Com esses olhos verdes. Deve ter um monte de caras correndo atrás de você. Eu infelizmente não posso correr, mas vim aqui hoje só para te ver. 

- Engraçadinho! Como você fica fazendo piadas da sua própria deficiência?

- Eu já me acostumei, afinal não é o fim do mundo, nunca gostei de me fazer de vítima. Eu trabalho, estudo, dou um duro danado para ajudar minha mãe em casa. Eu bebo, fumo, danço. Tudo que você faz, eu também faço, só não ando de bicicleta.

- Eu também não sei andar de bike, nunca tive uma. Minha mãe nunca teve grana para comprar...


Fernando não deixou Marianna terminar de falar. Dessa vez foi ele quem a beijou. Marianna se deixou ficar em seus braços, parecia que não havia mais ninguém em volta dos dois. 













sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Cadeia

Marianna beijou Fernando e achou seu beijo muito bom. Apesar de ser deficiente físico, Fernando tinha uma "pegada", que fez Marianna tremer. Marianna se desculpou por ter dado aquele beijo em Fernando. Mas sua cabeça estava a mil. O mais importante agora era rever Killer.

Marianna estava determinada a visitar Killer na cadeia. Mesmo tendo sido preso por tráfico de drogas, Marianna não se importava, pois ele era seu amigo. As pessoas erram. O mais provável, pensava ela, era que seu ex-velho amigo se fascinou com a possibilidade de ganhar muita grana em pouco tempo. Se iludiu com o dinheiro fácil. Talvez se eles não tivessem se afastado, Killer jamais teria entrado em uma encrenca dessas, pois Marianna teria impedido que ele se envolvesse com pessoas ruins. Talvez os outros velhos amigos não tivessem sido mortos também. Talvez... No fundo Marianna sabia que isso era uma ilusão. Pois ainda não existia uma máquina do tempo capaz de fazer as pessoas voltarem atrás e tentarem consertar seus erros. 


O mais difícil para Marianna foi ter que dizer para sua mãe que iria na cadeia visitar seu velho amigo. Como Killer tinha sido pego pela polícia com uma grande quantidade de maconha, eles o levaram para uma delegacia de polícia cívil. O ano era 1997 e o crak ainda não tinha feito tantas vítimas, como nos dias de hoje. 

A mãe de Marianna esperneou e deu um show. Falou que iria ficar triste. Que Marianna iria se arrepender. Mas todas as palavras foram inúteis. Afinal sua mãe foi a grande responsável pelo fim da amizade da filha com os garotos da DPT. Mas Marianna conhecia Killer, sabia que ele não era uma pessoa ruim, bem no fundo ele era um cara bom, que nunca teve muitas oportunidades na vida. Ele não era um assassino, como seu apelido queria dizer. Ele era apenas mais um jovem pobre, fruto de uma sociedade mesquinha, fruto de um lar destruído: o pai de Killer bebia muito e um dia sua mãe cansou daquela vida, largou os filhos com o pai e sumiu no mundo. Killer era o filho do meio de cinco irmãos. Seu nome verdadeiro era Márcio. 

Marianna saiu de casa e foi até a delegacia. Como estava muito ansiosa, chegou uma hora antes do horário de visita. Chegando lá Marianna mentiu e disse que era prima de Killer, então foi colocada em uma sala com outras cinco mulheres, que visitavam seus maridos. Mal sabia ela, o que estava para vir. A policial feminina pediu que as seis mulheres tirassem a roupa toda. Um por uma, as mulheres tiveram que agachar, pois poderia haver drogas escondidas em suas partes íntimas. Enquanto isso outra policial revistava as roupas das mulheres. Marianna sentiu tanta vergonha, que quase chorou. As outras mulheres pareciam estarem acostumadas com aquilo, que nem olhavam umas para as outras. Depois elas se vestiram e foram introduzidas para dentro do pátio da delegacia. 


Marianna jamais vai se esquecer da cena: Haviam quatro celas que caberiam no máximo dez pessoas em cada uma delas. No entanto haviam aproximadamente uns cem homens amontoados como bichos, havia também um monte de roupas penduradas em um varal improvisado e um odor desagradável de urina e fezes. Marianna pensou como eles faziam para dormir, comer e tomar banho. Ela ficou tão atordoada que pensou que fosse desmaiar e que nunca iria encontrar Killer no meio de tantos homens, que a comiam com o olho. Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, Marianna finalmente conseguiu localizar seu amigo. Ele veio até ela sorrindo. Só aquele sorriso valeu tamanha humilhação pela qual ela acabara de passar.  Bem de perto Marianna pode enxergar uns piolhos andando na cabeça de Killer, mas não disse nada. 


- Que bom que você veio me ver Sereia (era assim que ele a chamava). Disse Killer. Você trouxe cigarro para mim? 

- Nnnnão. Só tenho meu maço aqui, mas você pode ficar com ele se quiser. Gaguejou Marianna. Nem passou pela minha cabeça que você precisava de alguma coisa. Só queria te ver. Depois que Fernando me contou que os outros morreram e que você estava aqui, resolvi te ver.

- E sua mãe deixou você vir?

- Deixar ela não deixou, mas eu vim assim mesmo. 

- Que bom! Ninguém veio me ver. Minha mãe nem sabe se estou vivo ou morto. Minhas irmãs devem estar tristes pra caramba.

- Você deveria ter pensado nelas antes de se envolver com isso! Esbravejou Marianna. Desculpa! Mas é triste ver você aqui. Lembra quando íamos na Feirinha? Quando tomávamos todas? E agora, você está aqui privado de sua liberdade, por causa de maconha Killer.

- Mas eu vou sair e vou mudar. Nunca mais vou querer saber de maconha. Eu juro!

- Você não precisa jurar nada para mim. Eu vou embora. Te cuida! 

Marianna foi embora e prometeu para si mesma que nunca mais voltaria ali. Afinal seu dever estava cumprido: Fez uma boa ação ao visitar seu amigo.  Depois sentiu raiva de si mesma e impotente por não ter como tirar seu amigo dali. Pensou em encontrar Fernando. Fernando e seu beijo incrível.